Dukkha & Karma

O conceito de dukkha, tão bem explorado e explicado pelos budistas, conduz-nos a uma das grandes verdades da existência: enquanto houver vida, haverá sofrimento.

É fácil perdermo-nos nele. Na tristeza que se instala ,silenciosa. Na raiva que se contém ou se espalha, sem destino. Na depressão que se adensa quando resistimos ao que é, como é.

Resistir à dor é, quase sempre, inútil. Mas se o sofrimento é inerente à existência, como podemos libertar-nos dele, sem o negar? Thích Nhất Hạnh recorda-nos: “A atenção plena é a melhor forma de estar com o nosso sofrimento sem ser dominado por ele.” E aqui começa a viragem - o ponto onde transformamos o olhar sobre a dor em prática consciente.

Recordemos o conceito de karma - tão falado, tantas vezes mal compreendido. Segundo a tradição antiga do yoga, karma pode resumir-se à lei da ação e reação, o ritmo universal de causa e efeito. Tudo o que colhemos é gérmen do que semeamos. Ou, se preferirmos - tudo floresce daquilo que plantamos e nutrimos.

Assim, o verdadeiro poder não está em mudar o passado, mas em escolher como vemos e respondemos ao presente.

Cada acontecimento, cada emoção, cada desencontro tem uma origem kármica - uma causa invisível que brota de nós e a nós regressa.

Ao reconhecer essa teia - de energia e inteligência - que nos liga a tudo, a cada momento, tornamo-nos seres mais responsáveis. Responsáveis por cada pensamento, por cada gesto, por cada resposta que damos à vida.

Nos Upanishads lemos: “Conforme age e conforme se comporta, assim ele se torna.” E no Bhagavad Gita encontramos o eco dessa sabedoria: “Aquele que vê a inação na ação e a ação na inação é sábio entre os homens.”

O karma não é apenas o que fazemos fora — é o que cultivamos dentro. Está nos pensamentos que escolhemos elaborar, nas intenções que alimentamos, na harmonia que criamos entre a mente e o coração.

Viver conscientemente é ver tudo tal como é. É elevar o espírito sem fugir do humano. É acolher a dor sem se tornar dor.

Este é o caminho que trilhamos juntos, em yoga - num convite à atenção profunda, à auto-investigação, à compaixão e à tolerância.

E ao assumimos a nossa parte no desenrolar dos acontecimentos, o véu da vitimização cai.
E, com ele, cai também a ilusão de que o destino nos persegue, dando lugar à liberdade que nasce da responsabilidade.

Mas esta não é uma tarefa fácil! A mente humana é moldada aos sentidos, presa ao ego. Vê o mundo pelas lentes da dor e recusa-se a ver o todo. Por vezes, parece mais cómodo permanecer na auto-piedade - esse falso abrigo onde esperamos o gesto salvador do outro. Mas culpar a vida é recusarmo-nos a vivê-la plenamente.

O yoga surge então como mapa e caminho. Um legado antigo deixado por grandes seres, que nos mostra a travessia da mente até ao coração.
É o caminho que escolhi, aquele que me ensinou a ir além do raciocínio e tocar o mais subtil - a viagem de volta ao núcleo genuíno do ser.

E como qualquer caminho verdadeiro, ele é imperfeito, vivo, inacabado e repleto de surpresas.
Há beleza e dor, luz e sombra.
Estar consciente não diminui a dor. Faz-nos apenas mais atentos e responsáveis, mais serenos e compassivos. Porque quem acolhe a dor aprende a ver a sua impermanência, o limite dos pensamentos, e a fragilidade das emoções.

E nesse reconhecimento nasce algo novo: Um humano que se lembra de ser espírito. Um espírito que aceita ser humano.

Com amor e presença,

Diana

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Bom dia Matcha!